Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

17 de julho de 2009

Chorão

Saule Pleureur, de Claude Monet (1919)
100 x 120 óleo sobre tela


"Bendita a árvore que te pariu."
(Clarice Lispector)

Um acontecimento foi marcante na vida de Maninha, uma menina de imaginação fértil, que sonhava com uma irmã para compartilhar as brincadeiras normais de uma infância normal. Maninha não tinha amigos. Tinha somente os primos que vinham nos finais de semana ou nas férias deles. Ela ainda não sabia o que era uma escola. Seu companheiro de aventuras era Chorão que, ou dividia o quintal-palco dos fundos da casa, onde Maninha vivia princesas, fadas, malabaristas e até feiticeiras, ou assistia à menina correr como louca entre as margaridas, só para sentir o vento no rosto. Chorão sabia de seu apreço pelo vento e, por isso, proporcionava uma brisa suave à menina sempre que ela estava por perto. Dessa forma, ela permaneceria por mais tempo ao seu lado.

Aquela amizade parecia infinita, nada, ninguém jamais os separaria. Porém, numa dessas tardes de verão, quando Minuano chega sem avisar, derrubando as roupas dos varais, batendo as portas, invadindo as casas com a poeira que traz sempre consigo, ironicamente, os amigos viveriam sua primeira tragédia, aquela que daria fim às comédias vividas até então. Talvez por ciúme de Maninha, o vento tenha resolvido chamar sua atenção, pois ele também a queria sempre por perto.

Minuano, para executar o seu plano, veio acompanhado de uma tempestade. A mãe já a havia chamado para dentro da casa e corria de um lado para o outro em busca de janelas e portas para fechar. A menina teria rido dela, não fosse o uivo do vento e o barulho ensurdecedor do granizo batendo nas telhas da casa, que ressoavam assustadores nos ouvidos de apenas cinco anos de idade. De nada valiam os apelos da mulher, que angustiada, pedia para a menina se acalmar. Era mais do que a tempestade, havia um pressentimento que Maninha não sabia explicar.

De repente, um raio! Ele surgiu entre as nuvens escuras e avançou certeiro em direção ao quintal, onde estava Chorão, que não resistiu. Era demais, mesmo para ele. Depois disso, Maninha ainda presenciou outras tempestades com seus raios brilhantes, mas nenhuma delas proporcionou aos seus ouvidos um barulho igual. O estrondo fez Maninha esquecer o uivo do vento que, incomodado, cansou-se da brincadeira e resolveu partir, ainda esperançoso de reencontrá-la por aí para, quem sabe, brincarem juntos. A menina correu para a porta dos fundos da casa, de onde pôde assistir à cena final: Chorão, estendido no chão, inerte. O amigo fora embora. E agora? Quem dividiria a cena com Maninha?

Ora, não havia irmã, mas havia um irmão. Ela não era chamada de Maninha à toa. E, bem, descobriu que os meninos também sabem imaginar. Quanto a Chorão, seu último ato fora um sucesso! Andou de boca em boca pela vizinhança durante um bom tempo e, ainda hoje há quem conte a história do velho salgueiro do quintal da casa 567, que tombou ao ser atingido por um raio e, a falta que sua sombra devia fazer. O que essas bocas nunca souberam foi a falta que ele fez para Maninha...


(Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2003)

Texto publicado no livro Ciranda de uvas: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2004.

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