Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

31 de julho de 2009

Operação "Afasta-Mendigo"

Le mendiant, de Jules Bastien-Lepage (1880)
192,5 x 180,5 óleo s/tela


"Não sou dos que levam, sou coisa levada..."
(Cecília Meireles)

Saí do restaurante, onde acabara de almoçar com a pressa costumeira, devido ao atraso para a volta ao trabalho, quando percebi um burburinho se formando na calçada da famosa Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Apressada, olhando para o relógio que fazia questão de anunciar que já se haviam passado doze horas e trinta minutos daquela segunda-feira ensolarada, não dei atenção ao acontecimento, que logo se transformou em uma legítima algazarra.

Fazendo menção de seguir meu caminho, fui prontamente interrompida pela informação de que se tratava da guarda municipal pondo em prática a operação “Afasta-Mendigo”, intitulada oficialmente “Zona Sul Legal”.

Nós, cariocas (ou “cariúchos”, como é o meu caso) já estamos tão acostumados com as confusões promovidas por mendigos, camelôs e guarda municipal, que esta seria apenas mais uma história entre outras tantas do gênero, não fosse a minha surpresa ao ouvir aquelas palavras pronunciadas, aos brados, em bom Espanhol, oriundas de um grupo de mendigos argentinos que aqui aportaram diante da expectativa de melhores ganhos. Não pude deixar de pensar na tão em moda globalização.

Como se não bastasse a minha estupefação com o recente acontecimento de ordem internacional, uma dupla chamou ainda mais a minha atenção:

Circulando, meu camarada, circulando! Falou rispidamente o guarda para o esfarrapado, que já caminhava para os seus sessenta anos e do qual se podia dizer “bem apanhado”, não fosse um mendigo.

Impávido, o sem teto respondeu:

Caro irmão, acaso não sabes que o homem vive no seio das criações mentais que origina?

Pouco me importa! Levanta já daí, senão vai sair na “marra”! Respondeu o guarda, visivelmente consternado com as palavras do “pobre”.

Irmão! Todos lançamos, ao nosso redor, forças agradáveis ou desagradáveis ao círculo pessoal em que nos movimentamos...

Olha, já avisei e não vou repetir! Ou levanta, ou o cassetete vai cantar! Advertiu o guarda, completamente sem paciência.

Irmão! Engrandecei tua mente com a virtude das boas emanações de pensamento, e fazei de teu trabalho verdadeira bençããã... E o cassetete cantou.

O mendigo, com a destreza de um jovem de vinte anos, rapidamente se dirigiu rumo ao camburão da guarda municipal. Eu, embasbacada diante da situação, lembrei-me do relógio que, faceiro com seu tic-tac incessante, anunciava passar de uma hora da tarde. Retirei-me do local, tremendo em pensar na bronca do chefe. Porém, ainda houve tempo para ouvir a última do sábio pedinte:
A gente joga! Se colar, colou!

(Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2003)

Texto publicado no livro
Ciranda de uvas: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2004.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por seu comentário. Volte sempre!