Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

30 de outubro de 2009

A oradora

Mulher e crianças, de Candido Portinari (1940)
100 x 81 óleo sobre tela



"Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando."
(Cecília Meireles)

Levantou-se ao ouvir o pronunciamento de seu nome. Havia sido escolhida para ser a oradora da turma de formandos daquele ano, pois, mais do que uma boa aluna, era, acima de tudo, estimada por todos. Passo após passo, ia-se tornando evidente o nervosismo que tentava disfarçar com um trêmulo sorriso. Era inútil tentar conter as sucessivas emoções que o momento proporcionava, uma vez que a felicidade se esvaia por cada poro de seu corpo.


Postou-se ante a plateia, olhou para os outros formandos e neles, por trás de largos sorrisos de cumplicidade, reconheceu alguns de seus verdadeiros amigos. Estavam todos presentes e esperavam dela bem mais do que as pertinentes palavras que em breve emanariam de seus lábios. Nela, haviam depositado a confiança de que os saberia representar com a honra e sabedoria que sua difícil caminhada até ali merecia.

Olhou para seus familiares, para os conhecidos e também para os estranhos, enxergando neles nada além de seres humanos, como ela também o era – o que tornou mais fácil a sua tarefa. Frente àquele público desnudo do materialismo e da hipocrisia, agora se sentia à vontade para deixar fluírem as lembranças que afloravam em sua mente, como cenas de um filme vistas repetidas vezes.

Como não lembrar do pai alcoólatra que, chegando a casa, explodia diante da sutileza de palavras de compaixão, ou mesmo de uma outra mal elaborada, se fora nos objetos quebrados e nas ríspidas discussões que, tão realisticamente, adquiriu a força para enfrentar a adversidade? Como não lembrar da mãe que, amargurada, jamais lhe dera esperança de que a palavra "conquista" era passível de realização, se fora na dureza de suas atitudes que encontrou a sabedoria para entender que desistência significava omissão?

Emocionou-se ao recordar-se dos alunos carentes, como ela um dia fora, a quem dera aulas. Fora uma tentativa de garantir-lhes a conquista das ferramentas necessárias à sobrevivência num mundo aparentemente tão hostil. Para ela, a hostilidade do mundo era apenas uma forma de escudo que o homem se impunha para disfarçar o medo, pois, se fosse diferente, como explicar que naquele mundo dito "selvagem", tivesse conseguido descobrir aptidões e talentos jamais acreditados? Fitou a todos e sentiu-se grande.

Consciente de sua origem, mas principalmente de sua missão, entendeu que o canudo que em breve residiria em suas mãos deveria ser recebido como um troféu. Um prêmio merecido não apenas por ela, pois apesar de todo o seu esforço, não o haveria conquistado sem a ajuda daqueles amigos, mesmo que muitos deles desconhecessem o quanto lhe eram importantes. Percebeu que também eles venciam uma etapa e que a vida tem uma implicação estranha: quanto mais nos dividimos, mais nos sentimos plenos.

Depois disso, olhou a todos fixamente e, através de um confiante sorriso, compartilhou com eles a sua felicidade, iniciando o seu discurso com um firme e sonoro "Boa noite a todos". Em seu coração, a certeza de que não estaria ali, um ser humano em sua plenitude, se acima de tudo, além dela própria, outras tantas pessoas não acreditassem na prática e no poder da palavra Cumplicidade.


(Rio de Janeiro, inspiração em 29 de agosto de 2004)

Texto originalmente publicado no blog De aroma a buquê.
Republicado na coluna
Momento Lítero Cultural XXIII, de 05.07.2007, do jornal O Rebate
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