Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

7 de agosto de 2009

Os bichos que vi

Potsdamer Platz, de Ernst Ludwig Kirchner (1914)
óleo sobre tela


"A ferida por baixo da cicatriz - quem cura?"
(Vasco Gato)

Ontem, eu vi um bicho. Imaginei que ele fosse livre, pois estava solto – sem coleiras ou amarras. Avistei-o de longe e, sem compreender seu comportamento, fiquei apreensiva e curiosa. Fazia de uma esquina o seu refúgio e pareceu-me atormentado em sua solidão, já que, agressivo, avançava em qualquer um que se atrevesse a invadir o limite imaginário que havia estabelecido naquele espaço público.

Tentei pensar em outra rota, porém meu caminho e meu destino já estavam invariavelmente traçados. Segui em frente e, conforme nossa inevitável aproximação acontecia, minha visão ficava cada vez mais clara, até que, estupefata, pude perceber que o bicho devorava pedaços de carne crua ao mesmo tempo em que seus olhos ávidos percorriam incessantemente todas as direções. Compreendi que sua agressividade se originava no egoísmo peculiar da loucura chamada fome.

Ontem, eu vi outros bichos. Imaginei que também eles fossem livres, pois estavam libertos em seu ir e vir. Passavam próximos daquele primeiro bicho que já tinha perdido todos os limites de sua ínfima existência. Faziam de sua condição social o seu refúgio, já que, atormentados em seu preconceito, avançavam seus olhares agressivos e desdenhosos na direção do bicho primeiro, rejeitando-no, principalmente, em seu existir.

Ontem, depois de ver todos esses bichos e observá-los de perto, compreendi que nenhum deles era livre... e vi as mais variadas formas de prisão – desde a completa renúncia à dignidade até o mais puro egoísmo – em meio a uma frágil e restrita liberdade. E constatei que os bichos assim o são porque dessa forma se inventam; que sutil é o limite entre ficção e realidade; e, que não é a vida que imita a arte, mas a arte é que delata a vida. E o lamentável nisso tudo? Todos esses bichos que vi intitulam-se HOMENS.

(Rio de Janeiro, 25 de maio de 2004)

Texto publicado em:

Livro Ciranda de uvas: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2004.
Blog Mulheres Escritoras, em 18/09/2011.

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