Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

10 de julho de 2009

Tia... Compra?

Menino do tabuleiro, de Candido Portinari (1947)
óleo sobre tela



"Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam."
(Clarice Lispector)

Era terça-feira, dia de terapia. Alguns acham que psicanálise é bobagem, pura perda de tempo, mas, para mim, é imprescindível. Despedi-me do porteiro com o rotineiro “Até a próxima”, recebendo um “Vai com Deus” e saí do edifício, após mais uma sessão de análise, decidida a dar uma olhada nas vitrines para me atualizar em relação à moda e relaxar um pouco antes da semana de provas na faculdade.


Acabei entrando numa dessas lojas de departamentos e, totalmente inebriada pela decoração natalina, embora ainda estivéssemos em Novembro, adiantei-me para o segundo andar, pois é lá que fica a seção de brinquedos. Natal, para mim, sempre irá rimar com brinquedo... Um dia ainda escrevo um poema sobre isso.

Passeando pelas prateleiras, entre um deslumbre e outro, cheguei à conclusão de que meus “filhotes” já estão deixando a infância para trás, afinal, os pedidos para este ano não incluem brinquedo algum. Um pouco melancólica – sempre fico assim nesta época do ano – e também saudosa das alegrias vividas em 2003 – que ficarão para trás e só poderão ser revividas nas palavras de futuras histórias, que serão contadas e recontadas em outros tantos anos de alegrias – comecei a recordar da guria-menina-garota que um dia fui: o coração batendo forte, ansioso pela vinda de Noel; o frio do Sul na ida para a escola; o cheiro de talco da “Vó” depois do banho; o arrepio causado pelo Minuano anunciando temporal; o gosto do arroz doce com casca de laranja; as andanças de bicicleta pelo bairro com a turma da rua; a “baleada” das meninas contra os meninos.

De repente, uma vozinha cálida sussurrou: Tia... Compra?
Ainda repleta principalmente de Sul, pensei: “Negrinho do Pastoreio!” Não. Mirrado, de olhos profundos, era apenas mais um anjo caído, ou melhor, um anjo negrinho “descido”. Vinha, provavelmente, de um dos tantos morros do Rio de Janeiro para fazer das ruas a sua sala de aula. Nas mãos, um brinquedo.

Senti-me infame. Não tinha o dinheiro para comprar-lhe a mercadoria, barata, por sinal. Estava, eu, apenas olhando.
Senti-me infame pela segunda vez. Não comprar aquele brinquedo era o mesmo que lhe roubar o direito de um dia ter um momento parecido com o que eu acabara de vivenciar.
Senti-me infame pela terceira vez. A tia não pode comprar esse brinquedo para você. Minha voz soou quase como um pedido de perdão.

Imediatamente, a criaturinha esquálida se virou para uma senhora elegantíssima que estava próxima e repetiu a pergunta. Vibrei! Cheguei a cruzar os dedos. “Ela vai comprar”, pensei. “Negrinho ganhou, ganhou...” Ganhou um olhar de repúdio. Nenhuma palavra, nenhum “Passa daqui!”
Negrinho, acostumado, deu meia volta. Eu, que não estou acostumada, vou contar essa história para a minha psicoterapeuta na próxima semana.

(Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 2003)

Texto publicado no livro Ciranda de uvas: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2004.

2 comentários:

helentry disse...

Que bom, querida, proporcionar-me este presente hoje! Adorei ler sua crônica.Enterneceu-me.Não sabia que tinha um livro publicado.Parabéns!

Patrícia Sotello disse...

Elô!
Sempre atenciosa.
Fico feliz por sua leitura e pelo bom sentimento que ela lhe causou.
Você honra e colore este meu espaço, obrigada.
Beijo grande!

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