Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

24 de julho de 2009

"V" de Faca

Portrait of a young girl, de Joan Miró (1935)
41 3/8 x 29 1/4" óleo sobre tela



"Em companhia da linguagem / fiquei, e o mundo se elucida."
(Lêdo Ivo)

Aprendi, na aula de Ciências, que o abacaxi é um fruto feito da união de vários outros frutos. – Sabe? Cada um daqueles “olhos” equivale a um fruto diferente. Aprendi, na experiência, que o Brasil é um abacaxi. – Calma, eu explico! Na verdade, é como se cada uma das cinco regiões brasileiras fosse um país diferente que, juntos, compõem um todo chamado Brasil. Cada um com sua língua, sua cultura, sua gente. – Eu também explico:

Era o primeiro dia de aula em Salvador. Havia chegado à cidade há apenas uma semana e, ainda não tinha feito contato algum com os soteropolitanos. Tudo muito novo e muito assustador, ainda mais quando se é tímido.

Alguém disse que a Dona Cleidejane, a professora de Geografia, era “boa como quê”. – Que diabo é isso de “quê”? – “Quê”, o quê? E, lá veio a professora. Pendurou um mapa do Brasil no quadro e passou um exercício do tipo “correlacione”. Até aí, tudo bem, pois se tratava de um exercício sobre os principais rios brasileiros e seus afluentes.

À hora da correção, começou o meu martírio:

- Rio São Francisco? - Perguntou a dedicada professora.

- Letra A, “fessôra”.

Tudo foi muito bem, passando pelas vogais restantes e mais outras tantas consoantes, até que:

- Rio Paraná? - Indagou a paciente mestra.

- Letra V, “fessôra”. - Respondeu um esmilinguido lá no fundo.

Gelei. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de abrir a boca. Mas, bem que poderia ser mais tarde. V? Tem alguma coisa errada aí! Olha que eu detesto Geografia, mas tenho certeza de que a resposta é F. Sou tímida, mas não sou covarde. Questionei:

- Professora, qual é a letra mesmo? - Lá vou eu responder àquelas perguntas de sempre: se eu sou nova na escola; de onde eu vim; que sotaque é esse; o que eu estou achando da cidade, essas coisas. E o pior é que fui eu quem perguntou primeiro.

- Você é nova na escola? - Não disse? Mas, vamos pular essa parte.

- É V!

- Professora, não pode ser V.

- Não só pode, como é!

- Repete a letra, por favor?

- É V!

Resolvi apelar:

- V de quê, professora?

- Oxênte, “V” de faca!

Enquanto eu imaginava que estava enlouquecendo, calmamente, a professora dirigiu-se para o quadro, pegou um giz e rabiscou algo.

- “Tá venu”?

- Estou, professora. Isso aí é um “efe”.

A turma, em peso, caiu na gargalhada. Ainda tiveram a coragem de dizer que aquele pessoal lá do Sul é esquisito como “quê”. E para a minha desgraça, acrescentaram:

- Onde já se viu, “efe”? Então eles não sabem que faca começa com “fê”?

(Rio de Janeiro, 17 de dezembro de 2003)

Texto publicado no livro Ciranda de uvas: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2004.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por seu comentário. Volte sempre!