Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

14 de agosto de 2009

Alguém viu a "prr"?

Mother & child, de Paul Klee (1938)
Aquarela



"Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa."
(Paulo Leminski)

Quando menina e, mesmo na adolescência, era “desligada”. Havia sempre uma história feliz em minha mente – criações mentais para amenizar a realidade, talvez. Porém, com a chegada de Felipe, fui obrigada a abandonar os devaneios habituais e passei a prestar atenção a tudo. Desenvolvi meu sentido auditivo de forma tão incrível, que nem o mais sutil dos sons escapava aos meus ouvidos.

Foi assim que, naquele dia, pude perceber seus pequenos passos enfiados em pantufas se aproximando, frenéticos e impacientes, até invadirem a cozinha, onde eu estava. Jamais esquecerei aqueles olhos grandes e questionadores me fitando. Ficamos assim por alguma fração de segundos até que meus “afiadíssimos” ouvidos captaram a seguinte pergunta:

- A “prr”?

Dei continuidade, então, ao confuso diálogo:

- O quê, amor? - Questionei, decepcionada, ante à constatação da traição de meu aparelho auditivo.

- A “prr”! A “prr”! - A resposta veio taxativa, como se fosse um absurdo que eu não soubesse do que se tratava.

- Mas, afinal, o que é a “prr”? - Indaguei, em uma última tentativa de entendimento, frustrada por ver cair por terra todo o conhecimento adquirido nas aulas de Psicolinguística e outras tantas de Psicologia do Desenvolvimento.

- A “prr”! A “prr”! - Dessa vez, respondeu-me de forma intolerante e condenatória.

Deu meia volta e seguiu em direção ao quarto. Convém salientar que tudo isso fora realizado sem que o tal enunciado deixasse de ser emitido.

Segui-o e entrei no cômodo a tempo de ver a mãozinha atravessando as grades do berço e trazendo consigo a chupeta, que fora abocanhada vitoriosamente.

Olhou-me com desdém e retornou feliz da vida à brincadeira que havia abandonado minutos atrás para sair à procura de sua “prr”, que mais tarde, de forma natural, é claro, comprovando todas aquelas teorias fascinantes, se tornaria a “peti”, depois a “peta”, em seguida a “pepeta”, para, finalmente, virar a chupeta que, aos dois anos, ele tiraria da boca, por conta própria, para guardar debaixo do “bissê”, pondo fim à sua utilização.


(Rio de Janeiro, 11 de julho de 2004)

Texto publicado no livro Ciranda de uvas: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2004.

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