Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

27 de novembro de 2009

Confissão

Itaquera, de Marcia Misawa
aquarela



"Quando os ventos de mudança sopram,
umas pessoas levantam barreiras,
outras constroem moinhos de vento."
(Érico Veríssimo)

A casa onde morávamos não mais existe. Dela, além de umas poucas fotografias já bem amareladas, restaram outras riquíssimas imagens que podem ser chamadas de ternas lembranças guardadas nas frestas, fendas e vãos da memória. Era toda feita de madeira e, por isso, ela sim, possuía frestas, fendas e vãos capazes de me hipnotizar durante horas. Neles, eu projetava figuras imaginárias que deslizavam de um lado ao outro e, por vezes, saíam de lá, ora voando para em breve se dissiparem no ar, ora correndo para esconderem-se debaixo da cama.


Diziam que tinha uma aconchegante varanda, mas eu, de fato, nunca o soube, pois jamais aproveitara seu abraço. Ela dava para o quintal. Deste, lembro-me bem, pois era nele que, ainda muito menina, sonhava com uma irmã para compartilhar as brincadeiras e fantasias de uma infância simples, porém feliz. Lá se encontrava um pouco de tudo: à frente da casa havia um pé de cinamomo, cujos frutos, umas bolinhas verdes, isso antes de se transformarem em umas bolinhas vermelhas, diziam não poderem ser comidos. Como isso aguçava minha curiosidade! As samambaias plantadas rente à cerca branca cumpriam seu papel dando a ela um ar de sofisticação. À direita da varanda, havia uma árvore. Ornamentava nosso quintal lateral e produzia, com sua sombra, um efeito reconfortante em dias de verão. Dela, pendia um balanço confeccionado por mãos habilidosas, feito com uma tábua presa a um dos galhos mais fortes por uma grossa corda.

Porém, a melhor e mais saudosa de minhas recordações residia no quintal dos fundos. Lá, um convidativo campo de margaridas se oferecia aos meus olhos infantis maravilhados e contracenava com o grandioso Chorão e sua cortina verde-ondulante. Viam-se, ainda, alguns girassóis ao fundo, beirando a cerca que dividia o nosso terreno com o da casa vizinha pertencente à rua de trás. Nesse cenário, as borboletas encarregavam-se da pintura. Carregavam nas asas pequeninas aquarelas e, com seu voo desconexo, pincelavam no ar um quadro pós-moderno. O maior espetáculo de todos, porém, acontecia à noite, quando pequeninos fogos de artifício, os vaga-lumes, invadiam o espaço aéreo ocupado pela copa de Chorão, iluminando suas folhas lacrimejantes. Ele respondia verdejando a escuridão daquele espaço noturno. Era realmente lindo de se ver. E como eu amava toda aquela natureza.

Aquele pedaço de terra guardava também incertezas. Incertezas próprias de quem está por descobrir a vida. Entre monólogos, segredos, promessas, clamores e queixas, havia uma infinidade de quebra-cabeças a serem montados. O pior de tudo é que faltavam muitas de suas peças. Por isso, lá, às vezes, havia dor e sofrimento. Mas, lá, também podiam-se encontrar alentos. E mesmo sem respostas a muitas perguntas, havia a esperança. E momentos de eterno sonho. Um período de minha vida que, regido pelo filtro da ingenuidade de meus grandes olhos infantis, parecia infindo.

Entretanto, o tempo passa e leva tudo com ele. Às vezes, passa até mais rápido do que conseguimos perceber. Por isso, não demorou muito para que nossa casa, o quintal da frente e o lateral, inclusive aquela árvore, onde o balanço passou a apenas repousar, deixassem de existir. Tempo permitiu ao Vento carregá-los logo depois que fomos morar em outra casa. Na verdade, um apartamento. Sem cinamomos, samambaias, margaridas, girassóis, tampouco um chorão. Não bastasse isso, sem minha terra, minha língua, minha gente. Sem meu mundo particular. Não houve outro jeito. Não houve sequer uma chance de preparação.

Os primeiros dias foram muito difíceis, pois meu universo deixou por completo de existir. Fora totalmente devastado e, com ele, parte do meu coração. Agora, nem natureza, nem segredos, nem eu mesma. Apenas a dureza da realidade daquela vida. A "cara" amassada na janela insistia em buscar no azul do céu uma resposta plausível para aquilo tudo. Contudo, o nó que apertava na garganta e a lágrima que se insinuava no olhar não permitiam a aproximação de qualquer lógica, restando, na memória, apenas os momentos que eu mal havia conseguido guardar. O pouco tempo de vida vivido até ali pesava ante a lembrança dos pinheiros deixados para trás, todos sendo carregados pelo Vento que varria, também, as listras brancas pintadas no negro piche da estrada.

Tudo soava como uma grande condenação e era preciso enfrentar esse companheiro que nos toma tudo e nem sempre nos recompensa à altura de nossas perdas com aquilo que venta em troca. Naqueles dias, eu ainda não sabia que todos tentamos culpar alguém ou algo por nossas frustrações. Eu culpei o Vento. Entretanto, aprendi, à custa de algumas dúzias de lágrimas, algumas delas de felicidade, inclusive, que o Vento também pode ser doce. Nos incita aquelas frestas da memória como um pedido de desculpas. Vez ou outra, me permito invadi-las com o pretexto de apresentar o passado àqueles do presente, mas, na verdade, querendo reviver tudo aquilo que, um dia, chamei de meu mundo.

Havia, ainda, o Tempo. Aquele que age como um sábio instrutor nos proporcionando, a cada instante, o encontro da Sabedoria. Isso eu descobri não muito mais tarde. A irmã desejada nunca veio. No lugar dela, mais um irmão. Mas, houve a descoberta de que meninos, tanto quanto meninas, compartilham os mesmos sonhos e valores. Com ele, inclusive, iniciei o aprendizado de como ser uma boa mãe, tantas foram as vezes que comigo fantasiou em brincadeiras de casinha; de mamãe e filhinho.

Quanto ao Vento, este ainda ronda uma de minhas janelas. Aquela que se abre para onde sussurra o sonho acordado. Contudo, sopra de mansinho, tímido. Agora, usa uma máscara. Deixo que revolva, às vezes, singelos redemoinhos de afetos, só para que saiba que o tenho apreço. Acho que ele ainda não é capaz de compreender a dor da perda, por isso se disfarça quando quer se aproximar... Como é bobo! Mas, também, é apenas o Vento!


(Tijuca, iniciado em 04/08/2005 e finalizado em 09/01/2006)





Texto originalmente publicado no blog De aroma a buquê.

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