Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

28 de agosto de 2009

Fome de Outono

Duas meninas de avental azul, de Edvard Munch (1904)
115,5 x 93 óleo s/ tela


"Os olhos dos outros são prisões;
seus pensamentos nossas celas."
(Virginia Woolf)

Todas as manhãs eram iguais. A professora mal acabava de anunciar o fim da aula e as duas meninas saíam da sala de aula correndo, seguidas pelas outras alunas. O motivo de tanta pressa resumia-se em uma única palavra: fome.


Enquanto uma se dirigia impaciente ao refeitório, juntamente com o restante da turma, a outra seguia na direção oposta, a fim de sentar-se no lugar de costume, para dar início à sua leitura diária, pois, diferentemente daquelas, sua fome era de palavras. Abria o livro e, rapidamente, deixava-se envolver por aqueles símbolos e seus significados.


Vinham de lugares completamente diferentes e, mesmo na escola, preenchiam espaços opostos, sem fazerem um contato sequer. Pelo menos não até aquela manhã de outono, quando partilharam o prazer de sentir no rosto a brisa que revolvia suavemente a folhagem seca do pátio que, brincalhona, criava um redemoinho.


Destino quis que as duas se avistassem. Nesse momento, além do brilho nos olhos vivos e astutos, partilharam as incertezas próprias de quem, por causa da pouca idade e por nunca ter pisado em terras alheias, não possui a percepção de que o mundo se divide em vários outros mundos – às vezes, receptivos; às vezes, cruéis.


Observaram-se, analisaram-se e questionaram-se mentalmente, achando que uma era o avesso da outra, sua própria imagem ao contrário. Eram tão diferentes: na aparência e na maneira de ser. Naquele instante, repudiaram-se. Contudo, o que não sabiam era que, mesmo frente à sua antagônica existência, paradoxalmente, elas eram simplesmente iguais: meninas repletas de sonhos.


Afastaram-se, abandonando a chance de conhecerem o diferente e de acrescentarem um pouco mais de humanidade uma à vida da outra, porque não entenderam que momentos como esses acontecem em função das lições que precisamos aprender e, infelizmente, não souberam tirar proveito desse encontro, que fora único, pois nunca mais houve uma oportunidade como aquela.


Depois daquele, outros recreios vieram, até o dia em que escassearam completamente, mas não a fome. Essa ainda as persegue surgindo das incertezas, ora da garantia de um amanhã através do pão de todo dia, ora da conquista do sonho através de uma página onde haja uma brisa de outono com cheiro de ramagem ressequida.


A estrada, que um dia fora partilhada, levou a atalhos diferentes e, ainda hoje, circulam por mundos opostos. Entretanto, seus olhos continuam vivos e astutos e são a prova de que não há mundos nem totalmente receptivos, nem totalmente cruéis. O que falta é a consciência de que oportunidades não devem ser desperdiçadas. À face de suas óbvias diferenças, paradoxalmente, ainda hoje, permanecem tão iguais: mulheres repletas de sonhos.
(Rio de Janeiro, 08 de agosto de 2004)

Texto publicado no livro Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

2 comentários:

LEANDRO disse...

Essse foi o meu primeiro contacto com a tua escrita. Adorei!
Beijos,
Leandro Carvalho.

Patrícia Sotello disse...

Obrigada, Leandro, por seu comentário. Sinto-me honrada, pois vem de alguém inteligente e sensível. Beijo grande!

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