Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

21 de agosto de 2009

Ligue os Pontinhos

Broadway Boogie-Woogie, de Piet Mondrian (1942-43)
127 x 127 óleo sobre tela



"Em todas as lágrimas há uma esperança."
(Simone de Beauvoir)


Menino-gênio, avançadinho para sua época, à frente de todas as crianças da família no quesito intelectualidade, não conseguiu conter a gargalhada seguida do abominável enunciado: “Santa burrice! Elefantinho?”

A tia ainda tentou argumentar: “É para ligar os pontinhos. Na próxima semana, ela já vai começar a aprender as letras do alfabeto.” Mas, não surtiu efeito. Antes, tivesse ficado calada para não ter de ouvir novo pronunciamento: “Na primeira série e ainda não sabe ler, nem escrever?”

Menina-radiante, vinda de sua primeira semana em uma sala de aula, à frente de todas as crianças da família no quesito imaginação fértil, ou “mundo-da-lua”, não conseguiu conter a dor causada por tamanha crueldade, a que se seguiu a angustiante lágrima.

Menino-gênio não viu o líquido e, por isso, nunca soube de sua existência. É que a salobra gota escorreu por dentro dos olhos de menina-radiante e rolou até chegar ao seu coração. Depois, manter a situação imperceptível era uma tarefa fácil para ela que, na maior parte do dia, brincava de fingir sorrisos.

O tempo passou. O tempo sempre passa. Menino-gênio cresceu e, além de menino, deixou de ser... gênio. Transformou-se em um cidadão comum, trabalhador e pai de uma menina. Nunca mais gargalhou, nem emitiu suas famosas máximas – talvez porque sua filha seja, também, uma menina-radiante, como a protagonista da nossa história.

Essa última, também cresceu, mas durante um longo tempo, continuou sobrepondo sorrisos a inúmeras outras lágrimas, talvez porque não tenha deixado de ser, no íntimo, uma menina. Transformou-se em uma cidadã nada comum, mãe de um menino e de duas meninas – nem gênios, nem radiantes, apenas crianças.

E se você ficou preocupado ou preocupada por ela ter de fingir sorrisos, foi porque você não leu direito o parágrafo anterior, em que eu falo de sobreposição de sorrisos a lágrimas, não de fingimento. Os sorrisos aos quais me refiro, são verdadeiros.

Só para você ficar sossegado ou sossegada, vou lhe contar um segredo. Atualmente, ela tem andado com os pés fixos no chão, entretanto, a cabeça continua no “mundo-da-lua” e a imaginação, cada vez mais fértil. O elefantinho pontilhado ainda vive em seu coração, mas não aquela lágrima, nem as outras tantas, que evaporaram de tanto ligar pontinhos vida afora, esboçando novos e inesperados desenhos.


(Rio de Janeiro, 18 de julho de 2004)

 Texto publicado no livro Ciranda de uvas: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2004.

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