Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

18 de setembro de 2009

Filho das Letras

Le poète, de Marc Chagall (1911-12)
197 x 146 óleo sobre tela





"Diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro."

(Vasco Gato)

Conta a lenda que, certa vez, as estrelas resolveram ‘pregar uma peça’ em um orgulhoso casal de gênios, a quem haviam dado, no início dos tempos, o dom de lidar com os Números. Sua missão era criar inventos que ajudassem o próximo. Em vez disso, perdiam-se em contas, algumas até descabidas, acumulando riquezas e tornando-se egoístas.
O casal possuía ‘quase’ tudo: faltava-lhe, pois, um filho. Sentindo-se injustiçado, resolveu pedir às estrelas o rebento tão almejado, as quais, prontamente, atenderam ao pedido. Nove meses depois, nascia naquele lar um menino. Conforme a criança ia crescendo, tornava-se cada vez mais diferente deles, pois não demonstrava qualquer sinal de genialidade. Não tinha o menor jeito com números, o que atemorizava os pais: quem daria continuidade aos seus bens? Quem eternizaria seus grandes feitos?

Aos poucos, ao filho, foi sendo delegado o rótulo da incapacidade. O estigma da incompetência já havia dado mostras de que o acompanharia desde a mais tenra infância. Enquanto os pais perdiam-se em contas e mais contas, a ele restava a conformação frente aos comentários de mau gosto, pelos quais não passava indiferente.

“Por quê?” Indagava-se, sentindo-se indigno daquela família e indignado com o destino que a vida lhe havia reservado, sem compreender as razões daquela que acreditava ser uma incoerente existência. A insatisfação dos pais era evidente, restando-lhe os olhares complacentes e preocupados, como se ‘aquele’ filho fosse uma missão especial, uma provação por que haveriam de passar com humildade – não havia solução, era ‘o’ diferente.

O filho lutou contra esse fato durante algum tempo, violentando-se na tentativa de agradar aos pais. Contudo, com a autoestima aniquilada, sem a compreensão da família, com um desempenho entre o ruim e o péssimo, também ele resolveu recorrer às estrelas, quando então lhe foi revelado:

– Todos recebem de nós um dom, porém, a você, ele fora negado. Essa foi a forma que encontramos para castigar os seus pais por tanta inconsequência. Porém, diante de seu sofrimento, mudamos de ideia.

O filho, ante a luz das estrelas, sentiu-se sozinho. Acrescido a isso, não sentia diferença em sua essência, os Números não pareciam tê-lo encontrado. Temeroso, arriscou mais uma pergunta. Queria saber como poderia encontrar o caminho a seguir, já que não percebia mudança alguma em sua maneira de ser. Sabia que seu caminho abrira-se e que seu destino, agora, estava traçado, apesar de seus olhos não o poderem comprovar.

– Há um dom que já vive no seu coração. – Disse-lhe a estrela mais brilhante.

– A você foi concedido o poder de registrar os pensamentos dos diversos homens do passado e do presente, deste mundo e dos mundos que for capaz de imaginar. A você, concedemos a magia de contar histórias verdadeiras e fictícias, que transporão o tempo e tocarão os corações daqueles que tiverem a felicidade de as ouvir ou as ler.

– Lembre-se de que as Palavras são a sua maior arma e por isso faça delas o melhor proveito. Você descobrirá que há a palavra de amigo, a palavra de conforto, a palavra de honra, a palavra que silencia e o silêncio que fala. Tome cuidado, entretanto, com a palavra perdida, a palavra jogada fora, a palavra feita e a palavra ofensiva. Se conseguir seguir essas recomendações, terá cumprido a sua missão. Ouvindo essas palavras, o filho encheu-se de júbilo e retornou à casa.

Ele, que já estava cansado de sofrer calado, falou. Falou ao papel e falou aos homens através da mais bela junção de palavras já vista naquela família: dissertou, narrou, poetou. E descobriu-se gênio – também ele era possuidor de uma genialidade – não para os Números, como gostariam seus pais, mas para as Letras.

A descoberta da vocação gerou uma revolução em sua vida e o levou a trilhar por caminhos outrora desconhecidos. Contou as histórias de seu tempo e de outros tempos também. Contou, ainda, as histórias de sua família, realizando o desejo dos pais de perpetuação, ao compartilhá-las com os demais. Aprendeu com os Homens e estes aprenderam com ele. E foi honrado e aplaudido por onde andou, pelo tempo que viveu e a cada vez que foi lembrado.

(Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 2005)

Texto publicado no livro
Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

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