Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

25 de setembro de 2009

À Lembrança de um Sorriso

Mulher chorando, de Pablo Picasso (1937)
84,7 x 73,9 óleo sobre tela



"Os sentimentos areados, / o cristal dos olhos polidos, /
o terreiro tão bem varrido. / (...)"
(José Inácio Vieira de Melo)

Olhou pela janela do apartamento e pôde vislumbrar o pôr do sol que conferia àquela tarde de outono certa nostalgia, fazendo-a lembrar-se do velho álbum de fotografias já quase esquecido na estante. Gostava de ver fotografias, mas evitava aquele álbum que continha "o" mistério, "o" segredo, uma rota tortuosa que a levava a um inevitável sentimento de angústia. Ele continha aquela foto denunciadora que tanto a atraía e indignava.

Mentia a si mesma e aos outros dizendo que aquela era a sua foto preferida, pois de todas as cenas por ela registradas, aquela era a mais nítida, a mais bem centralizada, quase uma foto profissional. "Não." Por que tentar enganar a si mesma naquele momento em que estava sozinha? Não necessitava dar explicações, tampouco ouvir os frequentes comentários: "Já naquela época seu sorriso era encantador. Nele havia um 'quê' inexplicável." E o pai? Totalmente entregue "àquele" sorriso. Na verdade, ela não suportava aquela foto em que o sorriso dissimulado da filha já podia ser evidenciado. Amaldiçoado sorriso que a tantos conquistaria.

"Que mal terei eu feito a Deus?" indagava-se sem entender por que logo ela havia de ter uma filha como aquela. Ela, que era uma senhora respeitável, perfeita dona de casa, dedicada mãe de família, esposa compreensiva e companheira, mesmo quando o marido chegava a casa totalmente embriagado: "Ele está estressado, seu trabalho é realmente desgastante. Depois, que mal há em se tomar uma cervejinha?" Ela, que com o tempo soube tão bem mascarar o fracasso do casamento, mesmo quando o marido passou a ter um quarto só dele, por opção dela: "Ele trabalha demais, precisa de um espaço só dele, para descanso, assistir aos seus programas favoritos na televisão sem ser perturbado."

Sua vida seria perfeita, não fosse exclusivamente a existência dela, a filha, sua única e indigna filha. "Aquele sorriso, maldito sorriso." Tantas foram as vezes em que aquele sorriso lhe causara constrangimentos, apesar da orientação recebida. Ah, isso sabia fazer como ninguém: orientar; encaminhar; comandar; ordenar; enfim, "formatar". Depois dessa constatação, sentiu-se forte novamente: mal ou bem, havia educado a filha dentro dos seus rígidos padrões de disciplina e bons modos. Mas ela, sempre com "aquele" permanente sorriso lhe anunciava a possibilidade da existência de um ser humano realmente feliz, denunciando-lhe, à guisa de um espelho cruel, sua própria mediocridade.

Fechou o sorriso, quer dizer, o álbum, recolocando-o no "esquecimento" da estante, e voltou à sua vida "quase" perfeita de todo o sempre.


(Rio de Janeiro, 20 de abril de 2005)

Texto publicado no livro Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

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