Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

11 de setembro de 2009

Nomes e Destinos

Cabeça Rafaelesca Explodindo, de Salvador Dalí (1951)
43 x 33 óleo sobre tela



"O que verdadeiramente somos
é aquilo que o impossível cria em nós."
(Clarice Lispector)

Dizem que o nome carrega muita informação sobre nós e que, até mesmo, pode influenciar naquilo que somos, na nossa personalidade. É o princípio de um longo e constante processo de nossas vidas: a formação da nossa identidade. Todavia, mais importantes do que os adjetivos que um nome possa nos atribuir, são as sugestões incutidas em nosso inconsciente – na maioria das vezes, de maneira conveniente àquele que incute – nos fazendo crer que pequenas tolices são, de fato, grandes verdades, totalmente determinantes de nosso destino.

Assim, por um brevíssimo espaço de tempo, fui Letícia. Esse foi meu nome, pelo menos até eu deixar de merecê-lo. Não sei ao certo a razão, sei é que fui a culpada, todos nós, os mais fracos, somos sempre os culpados. Talvez a "cara" não ajudasse, devido às sobrancelhas arqueadas
herdadas do pai que sempre me deixaram com ar de zangada. Hum... Um pensamento surgiu agora em minha mente: "Seria esse nome, que significa Alegria, um ultraje? Uma afronta ao jogo da vida que outrora jogavam?"

Só sei
porque quiseram que soubesse que me tomaram a alegria e, no lugar dela, me impuseram o peso das obrigações sociais. Estavam movidos, talvez, por uma vã esperança de que eu, assim, pudesse consertar o que não tinha conserto o jogo deles. Ou, para me tornar mais uma peça deteriorada daquele jogo viciado e viciante, e assim ser mais bem aceita, já que, pelo menos aparentemente, passaria a pertencer ao lado deles o direito, já dizia Lya, que, por sua vez, tem nome de menina sabida das coisas.

Assim, eu me tornei Patrícia, que significa Nobre. Não um sangue-azul qualquer, mas aquele que nobre se faz ao submeter-se aos mandos e desmandos de seus soberanos – não bastasse o peso já depositado sobre meus ombros quando Destino de mim fez Mulher. Agora, sou comprometida com as aparências. A de quem tudo esperam, a de quem esperam o "certo", o "direito", regidos por um olhar patético de tão apático.

Entretanto, descobri que em sua cegueira acreditavam – e acreditam – que apenas eles veem e, por isso, tudo sabem. São eles os donos da verdade – da sua verdade – e não conseguem entender que Minuano sempre venta pelo lado esquerdo – errado para eles, essência da vida para quem tem a coragem de se deixar levar num sobrevoo pelas águas de cor azul-marinho de um sonho lúcido qualquer.

Só sei – porque quis saber – que não é Fado que nos delega o fardo. Por sermos, todos, elos tortos de uma corrente mal feita, nos justificamos demais e, esquecemo-nos de dar as mãos ao percorrermos essa estrada, esse caminho de San Tiago com seus pedregulhos pontiagudos a se oferecer aos nossos pés descalços.

Apesar disso tudo, sei que aquela que o cruzar depois de mim conseguirá se transformar em um belo pingente para essa corrente; saberá despetalar os mal-me-queres da beira do caminho – porque dela nada esperam; nela não puderam depositar suas frustrações, tampouco suas expectativas. Eles não a conhecem. Ela é quem se fará conhecer e eles irão aprender com ela. Contrariando Clarice, a Brilhante, sua história não será de aflições, porque é a que vem de fora, a que chega com o vento, a que viu mais e que os enxerga pelo lado de lá. Ela é Bárbara, a Estrangeira.

Foi assim que, por via das dúvidas, nomeei a minha sucessora...


(Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2005)

Texto publicado no livro Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

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