Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

4 de setembro de 2009

Sobre... Ah! A memória! Ou seria a falta dela?

A persistência da memória, de Salvador Dalí (1931)
24 x 33 óleo sobre tela



"Que suas lembranças não sejam o que faltou dizer..."
(Fabrício Carpinejar)

A memória é algo realmente importante na vida de uma pessoa. Diria, mesmo, essencial. Há quem diga que o maior bem de um povo é a sua memória... – concordo plenamente – pois, sem ela, se perde inclusive a identidade e fica-se completamente deslocado na sociedade.

Durante curto tempo acreditei "piamente" que esse tipo de problema – o de falta de memória – jamais aconteceria com meu pai, conhecido entre os amigos por sua memória espetacular – para números; para fatos, inclusive aqueles acontecidos há vinte anos ou mais; e, para tantas outras coisas ditas importantes. Porém...

Sabe aqueles dias em que se chega do trabalho e só se quer um bom banho e uma cama aconchegante? Bem, foi num desses dias que "Tata" – era assim que o chamávamos, meu irmão e eu – foi intimado por minha mãe a ir ao supermercado comprar alguns ingredientes que estavam faltando para o jantar, dos quais ela não abriria mão em hipótese alguma; e, o pior: teria de levar-nos consigo. Tentou argumentar, mas àquela altura, já havíamos escutado as palavras mágicas proferidas por ela e pulávamos como doidos à volta dele.

"Fazer o quê?" "Toca" todo mundo no carro e "descamba" para o "super". Chegando lá, cansado, Tata deixa os pequenos – nós – no automóvel em pleno estacionamento e vai às compras, alegando, é claro, que sem eles – nós de novo – seria "tudo muito mais rápido". Não nos importamos, pois adorávamos brincar de dirigir.

Dirige "pra" cá, dirige "pra" lá; faz de conta que estamos viajando... e o tempo vai passando... Sobe serra, desce serra... Fomos até Caxias do Sul, que era o lugar mais distante que conhecíamos naquela época, voltamos e nada, nem sinal do Tata. A brincadeira há tempo tinha perdido a graça e o pai não voltava com a compra.

– Maninha, "tô" com medo...

– Está tudo bem.

– "Cadê" o Tata que não volta?

– Não se preocupa que a fila deve "tá" grande.

De repente, Tata surge como em uma aparição. Abre a porta do carro, entra "danado da vida", e... de mãos vazias!

– "Cadê" a compra, PAI?!

– Não tinha o que a mãe queria??

– Fica todo mundo quieto que eu não "tô" bom!! Sem perguntas! Vamos "pra" casa!

Seguimos sem entender nada. É óbvio que meu irmão e eu ficamos na ignorância dos fatos, pois não nos atrevemos a soltar sequer um "pio" frente àquela situação. Meu pai parecia realmente consternado.

O nosso retorno gerou um tremendo "bafafá". Discute daqui, discute dali; xinga de cá, xinga de lá; só depois de muito tempo é que fui perceber as bolsas de supermercado em cima da mesa, após minha mãe ter exclamado indignada:

– Não tem justificativa! Nunca vi isso! Esquecer os próprios filhos no carro e vir a pé para casa com a compra!!!

É... a memória, ou a falta dela, faz dessas coisas. Se aprendi alguma lição com essa história, não lembro. De resto, em minha memória, ficou foi a lembrança de que depois desse dia, nunca mais chamei meu pai de Tata.

(Rio de Janeiro, 25 de novembro de 2004)

Texto publicado no livro Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

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