Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

9 de outubro de 2009

"Apenas" a Feira

Feira livre, de Roberto Branco (2004)
120 x 170 acrílica sobre tela




"Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu."
(Fernando Pessoa)

Madrugada de um domingo qualquer. Um barulho de madeira interrompe meu sono e me devolve à soturna realidade da noite. Fora tão difícil adormecer e no momento em que transporia totalmente o caminho traçado naquele sonho recorrente...


Aos poucos, identifico o som das barracas sendo montadas e das caixas sendo transportadas para que os produtos sejam expostos aos fregueses. "É apenas a feira.": penso numa tentativa vã de voltar a dormir. Decido, então, levantar e ir até a janela, de onde posso acompanhar a movimentação que começa na busca pela garantia da semana: mesa farta, para uns; pagamento das contas, para outros. Tudo depende do ângulo através do qual se vê.

Daqui de cima é fácil observá-los. Eles já estão chegando: alguns com seus carrinhos; outros em seus "carrões" e há os que não são adeptos nem de uma coisa, nem de outra, delegando o carregamento de suas compras a meras bolsas de supermercado. A visão é engraçada: um mundo de pernas que vão e vêm dando a impressão de que em algum ponto irão se cruzar gerando um emaranhado desconexo e singular.

Os dos "carrões", em sua maioria, têm os olhos "puxados" e são visivelmente paparicados pelos "flanelinhas", que fazem questão de lhes garantir a melhor vaga, de preferência à sombra. Eles somem entre as barracas de teto listrado retornando mais tarde acompanhados por negros carregando caixas que são depositadas nos porta-malas dos carros – uma cena incômoda para meus olhos de século XXI. Estão sempre sorrindo um sorriso engomado, assim como a aparência de suas roupas.

Os dos carrinhos são mais sérios. Talvez, por isso, prefiram fazer, eles mesmos, o carregamento de suas compras. Também se embrenham entre as barracas, retornando com seus pequenos meios de transporte abarrotados. Não sorriem, porém seus olhos transmitem satisfação. São ignorados e ignoram os flanelinhas.

Os das bolsas são quase taciturnos. É possível vê-los indo e voltando a rua inteira antes de estabelecerem qualquer contato que signifique aquisição de mercadoria. É fácil imaginá-los pechinchando, reclamando dos altos preços, ou mesmo pedindo uma "provinha" só para confirmar se a melancia está realmente "docinha". Esses, os flanelinhas cumprimentam como quem revê um velho amigo. E tudo isso regado por um belíssimo despontar do sol.


.../...

Fim de tarde de um domingo qualquer. Um barulho de vozes perturba meu merecido descanso em família e me devolve à crua realidade da vida. São gritos, discussões, xingamentos. Consigo entender um "Achei primeiro!" no meio da algazarra. Curiosa, retorno à janela e verifico que já não há mais feira. As barracas foram desfeitas, as caixas de madeira recolhidas, os caminhões recarregados. É hora de todos, assim como eu, aproveitarem o que sobrou do "domingão", seja passando o resto do dia com a família, seja recolhendo o refugo daqueles que por ali estiveram, e tudo muito rápido, antes que o "pessoal" da limpeza chegue.

Os que gritam são vorazes. Agem como se estivessem em uma arena, digladiando-se na busca pelo "melhor" resto. São tomates amassados, maçãs machucadas, laranjas estragadas, verduras carcomidas. Tudo sendo devorado: com os olhos, com as mãos, com os dentes... – outra cena incômoda para meus olhos de século XXI... Bem mais fácil será decifrar o enigma daquele sonho meu.

E tudo isso regado por um belíssimo pôr do sol!...


(Rio de Janeiro, 20 de maio de 2005)

Texto publicado no livro Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

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