Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

16 de outubro de 2009

Decisão "sem" Volta

Dive, de Martha Marshall
91,44 x 91,44 acrílica sobre tela



"Nascer antes pouco é diante de quem parte primeiro."
(F. Carpinejar)

Olhou para trás, suspirou profundamente e deu o primeiro passo. Foram dez, no total, todos calmamente contados até alcançar a mureta da ponte. Dez exatos passos o haviam separado do infinito. Agora, só restava a construção de concreto que lhe serviria de trampolim. Subiu com dificuldade, pois, como ultimamente vinha escutando: "já não era mais um garoto de dezoito anos".


Ergueu-se, abriu os braços, como se pedisse permissão ao Cosmos pelo que estava prestes a fazer, e soltou um berro de blasfêmia. Alguém devia assumir a culpa por aquela vida parada, pacata, pacífica e ele o havia escolhido: Deus. Era Ele o autor daquela dádiva: uma existência tão serena, tão sossegada, tão repleta de "ss"... Por isso, era possuidor de uma rotina perfeita: de casa para o trabalho; do trabalho para casa. Fora desolador o dia em que teve consciência desse fato.

A decisão havia sido tomada após ter sido oficialmente dispensado de suas ocupações, em cuja empresa trabalhara por mais de trinta anos. Havia uma boa indenização a receber e a esposa dissera que estava na hora de ele pensar um pouco mais na vida em família – se dedicar aos netos, arranjar uns amigos de carteado, essas coisas – afinal, "já não era mais um garoto de dezoito anos".

Porém, o que a esposa – amiga, amada, amante de tantos anos – não contava – isso era ele quem fazia bem, sempre "prevendo" o futuro para, então, se "prevenir" – era com aquela decisão inusitada. Imaginou como seria sua vida pregressa, a partir da regressa, e percebeu que "aquilo" ainda por vir não poderia ser chamado de vida, mas "teimosia em permanecer respirando". Resolveu tudo mantendo o sigilo absoluto, – era óbvio que tentariam a todo custo impedi-lo – providenciando o necessário para ouvir, dentro de alguns pouquíssimos instantes, o "ss" do vento em seus cabelos.

Sem olhar para baixo, contou mentalmente: "Um... Dois... Três!" E, de olhos fechados, lançou-se! E, de braços abertos, como se estivesse se oferecendo ao Universo, lançou-se! Podia sentir a ação de seu corpo rasgando o ar, que, em reação, devolvia-lhe aquela sensação de invasão por cada um de seus poros. Atravessava o infinito e o clipe passava intacto pela tela da memória, fazendo-o recordar todas as vezes que baixou a cabeça aos mandos e desmandos que permitira à vida lhe impor.

Tinha sempre feito tudo tão "certinho" e agora estava ali, quase tocando as águas geladas do rio. Isso o fez pensar no impacto final e sentir medo, contudo, já não era mais o momento de se arrepender. Criou coragem, abriu os olhos, escancarou a boca e gritou apenas o que havia para ser gritado naquele instante: "Uuu-huuuuuuu!!!!!"

E a corda elástica, chegando ao seu limite, o puxou de volta, afinal, sabia bem o que queria: "já não era mais um garoto de dezoito anos".

(Rio de Janeiro, 10 de junho de 2005)

Texto publicado no livro
Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por seu comentário. Volte sempre!