Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

2 de outubro de 2009

A Favor da Pena de Vida

Mulher e pássaro, de Márcio Melo (2004)
61 x 91 acrílica sobre tela



"Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal."
(Ana Cristina Cesar)

Estivera sentada no banco dos réus por tempo demais. Todavia, a espera parece, finalmente, ter valido a pena. Ella acaba de ouvir seu veredicto:
"Depois de tantos dissabores, tantas lutas inúteis, tantas situações e pessoas inconvenientes, tantos sonhos inteiros realizados pela metade ou não realizados, Ella, foste condenada à Vida."

Pela primeira vez em sua existência, Ella sente-se segura e confiante. Resoluta, toma a seguinte decisão: "Enfrentarei sem temor, sem remorso, sem culpa e, principalmente, sem aviso. Que aconteça o que tiver de acontecer, pois estou pronta. Que saibam de minha Vida sem nenhuma antecedência, caso contrário, seriam capazes de pedir uma revisão de todo o processo e, inclusive, do resultado final – acostumados demais que estão comigo..."

Lançando seu olhar para o futuro, nele encontra a tranquilidade. A falta do hábito de ter fé a impede de perceber que seu sentimento é conhecido pelo nome de Esperança. Ella, então, inconscientemente adivinha: "Nunca mais serei obrigada a sentir medo; nunca mais terei de me desesperar devido à insegurança; nunca mais permanecerei imóvel pela indecisão; nunca mais precisarei me preocupar com o que os outros possam pensar, até porque eles estão sempre deduzindo acerca do pensamento e comportamento alheios; nunca mais terei de assistir impassível à invasão dos meus limites; nunca mais serei impedida de repartir o que tenho de bom, nem de ter repartido comigo o que os outros também possam ter de bom."

Ella sabe que depois de executada a sua pena, sentir-se-á verdadeiramente viva. E todos saberão que Vida significa Transformação, pois já não haverá mais o pacato, o pecado, o comedido, o enquadrado demais às regras, tampouco o peso da culpa que nega a felicidade.

"Pronto. Está feito. Foi decidido. Cumprirei o meu Destino: Lançar-me-ei no abismo chamado Risco, meu corpo planará no vão da Conquista, minh’alma rejubilar-se-á no contato com a base sólida da Realização. E tudo aquilo que fui cederá lugar ao que reinventarei acerca de mim."

Sabendo que não será nada fácil, que terá de se respeitar para ser respeitada para, então, aprender novamente a amar e, assim, permitir ser amada, Ella olha para o céu azul celeste – agora ele tem cor – faz o Sinal da Cruz involuntariamente – agora a fé habita seu acelerado coração – e se lança à Vida.

(Rio de Janeiro, 20 de maio de 2005)

Texto publicado no livro
Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

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