Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

23 de outubro de 2009

Jura

The child's bath, de Mary Cassatt (1893)
100,3 x 66,1 óleo sobre tela



"E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir."
(Cora Coralina)

Há quem jure que parentes não se escolhem. Acrescentam ainda: aturam-se. Levando em conta apenas essas juras, pois há outros que juram de pés juntos que parentes são, de fato, escolhidos mesmo antes do nascimento – aquela coisa de karma – talvez estejam certos. Mas fique claro que só em relação à questão da escolha, pois há parentes simplesmente maravilhosos, indignos de serem classificados como "aturáveis".


De acordo com essa "corrente de pensamento", se não se escolhe pai, mãe, filho, filha, avô, avó etc., logo, eles são todos parentes. Alguns deles carregam tanto de nosso "eu genético" que não é preciso jurar que compartilham o mesmo sangue. Basta olhá-los para que nos reconheçamos lá. É como se estivéssemos "passeando" na sua montanha-russa espiralada, o DNA, gritando histericamente: "U-hu! Olha eu aqui! Olha eu aqui!"

E marido? "Ora, marido não é parente!" Jura? Muita mulher desiludida emite tal declaração como uma forma mesquinha de vingança contra aquele que ousou não lhe corresponder às expectativas. Claro que marido não é parente! Afinal, voltando à teoria, ele não foi escolhido? Quando tal sentença é emitida como sinônimo de "Ele não presta." ou "Ele é um inimigo em potencial.", na verdade, a desiludida está se esconjurando. É como se ela dissesse: "Sou uma incompetente, pois não sou capaz de discernir um homem bom de outro mau-caráter." Ou, pior ainda: "Eu não me amo!"

Como a vida não se faz apenas de dissabores, há quem sinta orgulho de não ter marido como parente, pois isso significa que se fez boa escolha. Nesse caso, a fulana estaria dizendo: "Ele tem defeitos? Sim! Mas eu o escolhi porque o amei desde o primeiro momento e sei que sou tão capaz de compreender suas faltas, como ele as minhas." Legal, né?

Mudando o foco, verificaremos que se escolhemos, também somos escolhidos. E não apenas como maridos ou esposas, mas como irmãos ou irmãs; pais ou mães; filhos ou filhas; netos ou netas. É simples: há pessoas que possuem amigos tão queridos que acabam sendo vistos e, principalmente, sentidos como se fossem um irmão ou uma irmã. Se forem mais velhos, equivalem a um pai ou a uma mãe. Se forem mais velhos ainda, ocuparão a posição de avós; ou, se forem mais jovens, poderão ser amados como se ama a um filho ou filha; neto ou neta. Sem falar nos adotados.

Devido a essa possibilidade, a vida me proporcionou ter alguém a quem chamar de "avó". Essa, eu não amei por ter escolhido. Amei por ter amado sua escolha de me escolher para amar. As outras duas, as parentas, juro que também amei. Mas, salvo algumas exceções, amar parente é característica "inata", mesmo quando não pudemos conhecê-los ou não fazem parte da nossa vida – este era o caso. Escolhido não. Ele é a "re"afirmação do sentido da nossa existência.

Amor escolhido é amor conquistado. E por isso é especial: tem olhar de admiração; ouvidos de cumplicidade; abraço protetor; sabor de mingau de aveia feito especialmente para nós; e, cheiro de talco aplicado após o banho. Amor conquistado orienta com sabedoria, estimula com prazer e reconhece com orgulho. Amor conquistado presenteia com o não presenteável. Assim era e assim foi a minha "avó". A que me escolheu para ser sua neta. A neta primeira. Jura – diminutivo de Jurandyr. No apelido pequenino, uma capacidade enorme de sustentar um amor que juro presente, visto que em mim ainda vive.

Àqueles que juram que parentes não se escolhem, o meu agradecimento. Em consequência, Jura pôde ser MAIS do que parente. Foi a avó do coração. A jura da verdade do sentimento originado na escolha. E "que dure enquanto for infinito", pois "se não for eterno, não terá sido amor". Ah! Isso vale pra marido também, tá?

(Rio de Janeiro, 21 de agosto de 2005)

Texto publicado no livro
Onze cores da uva: contos e crônicas. Rio de Janeiro: OPVS, 2005.

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