Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

13 de novembro de 2009

Da minha janela ou Menina-formiga

Janela aberta e com flores, de João Barcelos (2007)
aquarela 38x28 cm


"
O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar."

(Carlos Drummond de Andrade)

Sou uma "menina-formiga" muito esperta, pelo menos é isso que minha mãe sempre diz, porque eu adoro comer doces, desde balas até bolo de chocolate, passando por sorvete e pudim. Mas, na verdade, eu raramente como essas coisas.

Eu moro em um apartamento, na cidade do Rio de Janeiro, com meus pais e meus dois irmãos mais velhos. Da janela do meu quarto dá para ver um monte de coisas e meu passatempo preferido é ficar de lá olhando tudo o que acontece.

Da minha janela, eu vejo umas árvores teimosas que se mantêm vivas em meio a um mundo de concreto. Elas fazem parte do meu pequeno bosque particular. De lá, eu vejo as borboletas amarelas, azuis, laranjas, brancas e multicores que passeiam entre aquelas mesmas árvores. Eu vejo, ainda, essa vegetação mudar de cor, as folhas das árvores caírem após amarelarem para, então, surgirem outras verdejantes em seu lugar.

Da minha janela, eu vejo os bem-te-vis se cumprimentando e as rolinhas em pleno romance. Ah!... Na frente da minha janela o beija-flor vem pousar no ar! E como a minha janela se enche de poesia quando ele assim o faz! De lá, eu consigo ouvir a sinfonia das cigarras, anunciando mais um dia de sol. Eu consigo, ainda, ouvir o cantar estridente do bando de maritacas que passam alvoroçadas.

Da minha janela, eu veria o Cristo Redentor. Minha mãe disse que se isso acontecesse, eu seria uma privilegiada. Mas, um hospital me impede de vê-lo. Então, de lá, da minha janela, eu vejo as janelas do hospital e observo suas luzes acesas à noite. Eu vejo, ainda, enfermeiras vestidas de branco, usando suas toucas verdes, num misto de cuidado e apreensão.

Da minha janela, eu não posso ver os pacientes, mas posso imaginá-los porque são todos crianças iguais a mim. Minha mãe disse que eu sou uma privilegiada por não precisar estar internada lá. Dessa vez ela conseguiu me confundir... Primeiro, diz que eu não sou uma privilegiada e depois diz que sou!

Um dia, minha mãe me levou àquele hospital para fazer exame de sangue. Porque eu tenho uma doença chamada Diabetes. É que eu tenho um monte de "diabinhos" me fazendo cócegas sem parar. Isso foi meu pai quem falou, mas eu sei que não é nada disso, pois ele queria me fazer rir para esquecer o tal exame.

O hospital é muito grande e eu até poderia me perder lá dentro. Por isso eu me comportei muito bem, ficando quieta e sempre perto da minha mãe. Enquanto eu aguardava a minha vez, e como meu passatempo preferido é ficar olhando tudo o que acontece, aproveitei para olhar pela janela. E descobri que da janela do hospital dá para ver um monte de coisas.

Da janela do hospital, eu vi a mesma flora e fauna que eu vejo sempre. Mas, eu fiquei surpresa mesmo foi quando eu pude ver A MINHA JANELA!! De lá, eu vi também as outras janelas do meu apartamento e toda a minha vida passou pela minha cabeça igualzinho àquela apresentação em Power Point, que meu pai fez no computador para o trabalho dele. Eu consegui, ainda, perceber que eu não preciso ver o Cristo Redentor de lá de casa, pois Ele já faz parte da minha família. Na verdade, somos eu, meu pai, minha mãe, meus irmãos e Ele dividindo o mesmo teto.

Se eu sou privilegiada ou não, isso eu não sei. A verdade é que eu sou muito feliz por viver nesta "cidade barulhenta e poluída", meu pai é quem diz isso, porque nenhuma outra criança no mundo tem a família que eu tenho, tampouco podem usufruir todas as belezas da natureza que eu posso. Em plena cidade grande! Tudo isso só lá, da minha janela.

Depois disso, ficou fácil fazer o exame. Eu nem percebi a agulha entrando na minha veia e acabei ganhando um pirulito, que só pude provar depois que o médico viu o resultado e disse que estava tudo bem, que a diabetes estava controlada, porque eu estava sendo uma "menina-formiga" obediente...

Será que minha mãe foi dizer a ele como me chamava?


(Rio de Janeiro, 19 de maio de 2005)


Uma curiosidade sobre o texto:

Seu título original é "Da minha janela", no entanto, o amigo Selmo Vasconcelos, ao acrescentá-lo na Momento Lítero Cultural, o chamou de "Menina-formiga". Isto, devido à dedicatória que eu havia feito à minha filha caçula: "Para Júlia, minha menina-formiga predileta". Conclusão: Achei ótimo e passei a usar!

Texto originalmente publicado no blog Entreletrinhas.
Republicado na coluna
Momento Lítero Cultural V, de 15.02.2007, do jornal O Rebate.

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