Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

6 de novembro de 2009

Gente importante

Mulatinha com laço vermelho, de Cândido Portinari (1943)
46 x 37,5 óleo sobre tela



"Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!"
(Mário Quintana)

Aquela noite fora diferente. Não se ajoelhou, nem conversou com Deus, como fazia todas as noites antes de dormir. Não contou a Ele suas aventuras infantis, tampouco relatou as desventuras que sempre a levavam a descobertas intrigantes sobre “esse mundo tão complicado”, como costumava dizer quando algo dava errado. Também não sentiu vontade de agradecer por mais um dia de vida, porque, naquele momento, sentindo-se inútil, não entendia muito bem a razão de sua pequena existência.


Deitou-se no colchão duro, como dura estava sendo a sua realidade e, involuntariamente, todas as cenas daquela manhã desastrosa foram se concatenando em sua mente. Como em um filme, igual àquele único que assistira no cinema, no passeio organizado pela escola, as imagens foram se reproduzindo, uma a uma, na sua frente. Primeiro veio à lembrança o seu ‘problema’, o motivo de tantos dissabores: “Uma dificuldade em aprender as coisas, que a faz estar atrasada na escola”, como repetia a mãe, a todo o momento.

Viu, novamente, a professora entrando na sala de aula dizendo que dividiria a turma em grupos, para que discutissem sobre uma tal ‘comunidade solitária’ – fora essa a expressão captada por seus ingênuos ouvidos. Não entendeu porque a dita comunidade era solitária, pois a professora falou sobre muitas pessoas se ajudando, assim como na comunidade em que ela própria morava, onde todos eram muito unidos. Pensou que a comunidade da professora podia se chamar ‘Comunidade Unida’, já que quando uma família carecia de algum bem, todos contribuíam como podiam para que aquela falta fosse suprimida.

Então, lembrou da dor de cabeça surgida por causa de todos aqueles nomes estranhos que a professora citou. Havia um tal de Gandhi; uma madre, chamada Teresa de Calcutá; um outro chamado Chico Xavier; e, ainda, um Paulo Freire. Também havia um Betinho, que a professora disse ser irmão do Henfil, o que não facilitou em nada a discussão, pois também não sabia quem era esse, a que se seguiram tantos outros nomes de que nunca tinha ouvido falar. Contudo, a professora mencionou Jesus Cristo e, “pelo menos esse ela conhecia”, pensou constrangida.

A pior lembrança foi a do momento em que a turma toda começou a rir, por causa da sua resposta à pergunta da professora. A mestra pediu um exemplo de pessoa que ajudava as outras e, inocentemente, a aluna respondeu que era o ‘grandão’ da comunidade onde morava. Não entendeu porque a professora disse que tal exemplo não servia e ainda acrescentou que a menina era mesmo um caso perdido. “Mas, como? Se tantas vezes o viu ajudando as pessoas de sua localidade?”

Derrotada pelo cansaço, momentos antes de dormir, pensou ainda que, no dia seguinte, não deixaria de dividir o sanduíche – aquele que sua mãe havia prometido fazer quando recebesse o salário na casa da patroa – com Açaí, seu melhor amigo, cujo pai está desempregado há mais de dois anos. Acabou adormecendo, crendo que “jamais aprenderia algo valoroso em sua vida, tantas eram as provas disso; depois, não havia nascido para ser ‘gente importante’”, apesar da imensa paz que sentiu pela oportunidade que a vida lhe ofertava de compartilhar com o próximo.


(Rio de Janeiro, primavera de 2004)



Texto originalmente publicado no blog Entreletrinhas.

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