Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

4 de dezembro de 2009

Preta

Moça na janela, de Francisco Rebolo
32 x 25 óleo sobre tela



"A quatro mãos escrevemos o roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu"

(Lya Luft)

Preta nasceu pretinha. Do couro cabeludo, brotavam pimentinhas denunciadoras do pixaim que tempos depois se revelaria. Não chorou ao nascer, motivo de preocupação para os médicos. Mas, em vão. Não sabiam o que Preta já nascera sabendo: muitas seriam as dores daquela existência. E não seria um tapinha à toa que a faria chorar já logo no primeiro dia de vida. Com o passar do tempo, ela provaria que não era muito afeita a lágrimas.


Não nasceu no Morro, mas nele se criou. Nele, logo cedo, aprendeu algumas das piores verdades da vida. No Morro, Preta assistiu a crianças nascendo e a outras tantas morrendo. No Morro, Preta presenciou inúmeras “rajadas”, às quais se acostumou. No Morro, Preta vivenciou a experiência de se acostumar com a violência física e moral. Não devia. Mas, no Morro, ou a gente se acostuma, ou vai embora de lá. E, como Preta não tinha para onde ir, também ela se acostumou.

Na escola, sentava no fundo da sala de aula. Enquanto a professora explicava a lição, Preta sonhava, sonhava. Às vezes, em vez de sonhar, ela imaginava. Imaginava ter um cabelo longo até a cintura feito o cabelo da menina mais popular da escola. Preta imaginava sua longa cabeleira que balançava, balançava. E deixava sua imaginação fluir feito as águas que corriam pelos encanamentos da cidade e que jamais chegavam ao alto do Morro.

De mar, Preta não sentia vontade. Talvez, porque morasse perto do céu. Talvez, porque tivesse, ela própria, um mar interior. E que ondas revoltas aquele mar criava! A primeira delas trouxe algo chamado paixão. Aos quinze anos, Preta se apaixonou perdidamente. E foi correspondida. Pelo menos, era isso que ela pensava até descobrir que seu primeiro grande amor se deitava com suas amigas. Não chorou ao ser traída, motivo de preocupação apenas para a mãe. Do pai, sequer sabia o nome. Mas, em vão. A mãe jamais saberia que a filha, por vingança, se deitaria com o melhor amigo de seu grande amor.

Essa última relação lhe traria algo chamado filho. Aos dezesseis anos, Preta tornou-se mãe de um filho de seu grande amor. Pelo menos, era nisso que ele acreditava até descobrir que seu primeiro filho, na verdade, não era seu. E exigiu de Preta um filho legítimo. Assim, aos dezessete anos, foi mãe pela segunda vez. Agora, o filho era realmente de seu grande amor. O que já não era mais real era o amor que Preta sentia. Não chorou ao se desencantar, motivo de preocupação para as poucas amigas restantes. Mas, em vão. O amor rapidamente retornaria ao coração de Preta.

Entretanto, desta vez, não houve tempo para traições, nem filhos legítimos, tampouco ilegítimos. Não houve tempo sequer para seu amor tornar-se irreal. Preta não sabia, mas o seu novo grande amor tinha “responsabilidades” a que deixara de cumprir. E, assim, saiu repentina e estupidamente de sua vida o seu segundo grande amor, cujo corpo não foi encontrado até hoje. Contudo, Preta não chorou ao “enviuvar”. Em vez disso, tomou uma decisão que mudaria sua vida.

Aos dezoito anos, com dois filhos, sem marido, sem pai e com uma mãe que melhor seria não tê-la, lá se foi Preta comprar dois pacotes de um produto que revolucionaria sua amargurada vida. Depois da aquisição, o que se podia ver, no lugar do pixaim, eram longas trancinhas de fios de nylon que desciam pelas costas de Preta até atingirem a cintura.

No dia em que Preta se viu de tranças à frente do espelho, chorou. Pela primeira vez, Preta chorou. Chorou o choro contido no dia do nascimento e em todos os outros dias em que devia ter chorado ou, pelo menos, em que era esperado que chorasse. Foi à frente do espelho que Preta descobriu que a vida podia lhe dar bem mais do que já havia dado (ou tirado) até então. Foi à frente do espelho que Preta aprendeu a chorar e é à frente do espelho que ela renova seu choro a cada vez que balança suas tranças.


(Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2007)


Texto originalmente publicado no blog De aroma a buquê.

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