Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

11 de dezembro de 2009

Uma crônica sobre rostos de mulher


Moça na frente do espelho, de Pablo Picasso (1932)
162,3 x 130,2 óleo sobre tela



"Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida, fases de vir para rua..."
(Cecília Meireles)

Uma crônica sobre rostos de mulher deve ser escrita para mulheres. E para homens também. Para os homens dessas mulheres. Pois, sem eles, elas não seriam mulheres por inteiro, assim como eles seriam homens pela metade sem elas, suas mulheres, suas companheiras de uma vida ou de um dia. Suas esposas, suas amigas, suas mães, sua sina.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve ser escrita em todas as línguas, e em língua alguma. Porque em qualquer e toda língua e, mesmo em sua ausência, se é mulher. Difícil, há que se entendam e aceitem as sutilezas dos impasses linguísticos, é saber se fazer ouvir quando se é mulher.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar sempre de amor. Do amor desmedido que surge do abandonar-se para, mais tarde, se não for tarde demais, resgatar-se. Do amor incondicional de que apenas as grandes mulheres são capazes, muitas delas analfabetas, pois não é mister ser letrada para ser mulher. Para isso, sim, basta saber-se renúncia.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar de máscaras. Máscaras de filhas, irmãs, mães, namoradas. Esposas, amigas, chefes e chefiadas. Máscaras de bruxas e também as de fadas. Ela deve falar das máscaras escolhidas, das impostas, das ajustadas e das mal colocadas. Das nem tão libertas em biquínis e das mais aprisionadas ainda em burcas.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve mesmo falar de rostos. Aqueles revelados na inutilidade das máscaras. Redondos, ovais, triangulares, quadrados. Jovens e já nem tanto. Rostos em meio a rugas, outros em maquiagens. Dos marcados. Pelo tempo e por cicatrizes de bisturis e de violência. Porque rostos de mulher, apesar de belos, são ainda violados.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar de abundância e de escassez. Ela deve falar sobre fartura de bem-querer e de lágrimas. Deve também falar sobre falta de má vontade. E deve falar de convivência e conivência. De bem-servir e querer ser bem servida. Que fale de desejos, aspirações, metas a cumprir, objetivos a alcançar e sonhos a realizar.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve conter susto e espanto. Pois, um rosto de mulher, por mais que já tenha visto, nunca viu o suficiente. Deve conter verdade. Porque, em um rosto de mulher, ela, a verdade, sempre será desvendada em um par de olhos, ainda que voltados para o chão. A crônica deve conter erros, haja vista serem o melhor caminho para a humildade necessária ao aprendizado.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar sobre busca. A busca na memória do ponto em que se perdeu ou foi perdida. Do dia mais feliz de toda vida. Do dia do encontro consigo e com o outro. De insights e epifanias. Da busca pelo nó outrora atado. Pela teia em que se achou um dia enredada. Da busca pela felicidade imaginada na infância.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar de paz. Da paz realizada em cada acanhado ato. Da paz almejada ao calar. Da luta pela paz que gera o grito. Também deve conter um alento, um sopro de esperança para a omissão que leva a paz embora. E que fale de coragem. Da coragem emergida ante as dificuldades do existir em um mundo masculino. Da coragem de ser homem quando se é mulher.

Uma crônica sobre rostos de mulher há de conter o mundo. Deve falar de inundação e de aridez. De prantos e sorrisos. De mesa posta e de fome. Fome no estômago e fome de saber. De prazer e de não saber o que é isso. De paixão e comiseração. De dignidade e indignação. De passado e futuro e, principalmente, de presente. Do presente que é viver.

Que fale de angústia, mas que seja uma oração. Que fale de preconceito, mas que cite o perdão. Que seja, toda ela, poesia em forma de prosa. E que por fim, fale de prova. Uma crônica sobre rostos de mulher só não deve falar...

É de desistência.

(Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2007)


Texto publicado em:
Livro Brasil-Haiti: 101 histórias. Uma esperança. São Paulo: Garimpo Editorial, 2010.
Blog Mulheres Escritoras, em 18/09/2011.

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