Uma tentativa, sabida vã, de dar significação à vida.
Uma certeza de, na junção das letras, conferir à vida o meu significado.

13 de dezembro de 2015

O menino do meu sonho

Agriculteur assis au coin du feu et de lecture, de Vincent van Gogh (1881)
técnica mista: aquarela e carvão


"O que é a vida real? Os fatos?
Não, a vida real só é atingida pelo que há de sonho na vida real."
(Clarice Lispector)


Ao menino do meu sonho foi incumbida a tarefa rotineira de fazer uma entrega.

Diariamente, às doze horas do relógio cuco, duende ao ombro, ele se afasta de sua brincadeira séria e ainda mais sério sai de casa.

Ele percorre uma alameda de pedras ladeada por árvores com folhas secas e amareladas. Guiado pela brisa outonal, passos firmes e precisos, segue ao encontro de um velho cabisbaixo, em cujas mãos reside um livro surrado.

O menino do meu sonho é o único que consegue abrir a porta pesada da casa do velho, mas só o faz porque tem a ajuda do duende.

Sem se importar com a aparente alienação do velho, o menino exclama algo a que o duende reage prontamente, saltando-lhe do ombro e se acomodando no ombro do velho.

O menino volta a fechar a porta e retorna sorrindo pelo mesmo caminho, agora transformado em um corredor de álamos majestosos. É nitidamente primavera.

Diariamente, o menino do meu sonho visita a si quando velho, para devolver-se o duende em quem a fé maculada pela solidão já não é capaz de acreditar.

O menino, movido pela arrogância própria do jovem, acredita ser ele o único responsável pelo desempenho da difícil tarefa, a qual exige disciplina. Contudo, desconhece que é o velho, com sua vasta sabedoria, que o atrai ao recordar a magia da infância vivida toda vez que abre o livro. Às vezes, o menino percorre a alameda debaixo de chuva. Bobo, ainda não percebeu que isso se repete anualmente sempre em determinadas datas, que é quando dos olhos do velho vertem-se lágrimas.

O velho do meu sonho sabe que sozinho já teria sucumbido, e por precisar do menino, deixa que este siga acreditando que apenas ele conhece o poder das palavras que profere a cada vez que abre a porta: 

JÁ CHEGOU A POESIA!

(Rio de Janeiro, 04 de dezembro de 2015.)

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